XP e banco do Banco Mundial injetam milhões em rede de olhos

XP e banco do Banco Mundial injetam milhões em rede de olhos
Foto: valor.globo.com

Enquanto brasileiros esperam meses por consulta oftalmológica no SUS, a XP Inc. — gigante dos investimentos que administra R$ 1 trilhão — acaba de receber aporte da IFC, braço privado do Banco Mundial, em sua rede de clínicas de olhos.

O valor do cheque não foi revelado. Mas quando a IFC coloca dinheiro, não é trocado. A instituição financeira internacional costuma desembolsar de US$ 50 milhões para cima em operações no Brasil.

O império da visão

A rede em questão pertence à XP Private Equity, braço de participações da corretora fundada por Guilherme Benchimol — que figura regularmente no ranking dos bilionários do Brasil com fortuna estimada em R$ 8 bilhões.

A estratégia é clara: consolidar clínicas oftalmológicas em um país onde 35 milhões de pessoas precisam de óculos e não têm. Saúde dos olhos virou commodity para quem tem capital.

A IFC não investe por caridade. A instituição pertence ao grupo Banco Mundial, mas opera com lógica de mercado: quer retorno financeiro robusto em países emergentes.

Quem ganha com a miopia alheia

O modelo é simples: XP compra clínicas menores, padroniza atendimento, reduz custos operacionais e multiplica unidades. Depois vende a rede inteira para algum fundo estrangeiro ou abre capital. Lucro na veia.

Enquanto isso, o brasileiro médio:

  • Espera 6 meses por consulta oftalmológica no SUS
  • Paga R$ 300 a R$ 800 por consulta particular
  • Desembolsa R$ 2 mil em cirurgia de catarata na rede privada

A IFC justifica o investimento alegando que amplia acesso à saúde. Tecnicamente, verdade. Mas acesso para quem pode pagar.

O jogo dos bilionários

Benchimol construiu a XP transformando investimentos em produto de massa. Agora aplica a mesma receita na saúde: pegar serviço essencial, empacotar bonitinho, vender caro.

A XP Private Equity já tem participações em educação, saúde e tecnologia. O portfólio cresce enquanto serviços públicos minguam.

A ironia: dinheiro público internacional (IFC é ligada a governos) financiando negócio privado que atende quem tem grana, no país onde imposto deveria garantir saúde gratuita universal.

O que vem por aí

Com capital fresco da IFC, a rede de oftalmologia da XP deve acelerar aquisições. Expectativa é dobrar número de unidades em 18 meses.

Para os sócios: retorno suculento. Para o paciente: conta mais salgada. Para quem depende do SUS: a mesma fila de sempre.

Benchimol e outros nomes do ranking de bilionários do Brasil seguem provando que no capitalismo brasileiro, até enxergar virou privilégio de classe.

Isabela Guimarães Coutinho

Isabela Guimarães Coutinho

Editora de perfis. Escreve retratos de personagens do poder — do bilionário ao aliado invisível do Planalto.