XP e IFC investem R$ 500 milhões em rede de oftalmologia

XP e IFC investem R$ 500 milhões em rede de oftalmologia
Foto: valor.globo.com

Enquanto 34 milhões de brasileiros esperam anos por uma consulta oftalmológica no SUS, a XP Investimentos e a IFC — braço privado do Banco Mundial — acabam de fechar um negócio de R$ 500 milhões em clínicas de olho. Dinheiro grosso. Saúde como ativo financeiro.

A International Finance Corporation (IFC) acaba de aportar valor não revelado na rede de oftalmologia controlada pela XP. A operação foi estruturada para expandir a rede que já conta com dezenas de unidades pelo país.

O Negócio Por Trás dos Óculos

A XP entrou no setor de saúde visual em 2021, comprando e consolidando clínicas oftalmológicas regionais. O modelo é simples: adquirir clínicas tradicionais, padronizar processos, inflar margens.

A IFC — instituição multilateral que teoricamente promove desenvolvimento em mercados emergentes — virou sócia do negócio. A ironia: uma entidade ligada ao Banco Mundial lucrando com saúde privada enquanto o sistema público agoniza.

Quanto Vale Um Olho?

Os números não foram divulgados, mas fontes do mercado estimam que a rede valha entre R$ 400 milhões e R$ 600 milhões. A IFC costuma entrar com 15% a 30% em operações deste tipo.

A conta é fria:

  • Consulta oftalmológica particular: R$ 300 a R$ 800
  • Cirurgia de catarata privada: R$ 8 mil a R$ 15 mil por olho
  • Mesma cirurgia no SUS: fila de 2 a 3 anos em algumas regiões

A XP não comentou valores. A IFC confirmou a operação em nota técnica, citando "impacto social" e "acesso à saúde de qualidade".

Conexões que Enxergam Longe

O setor de saúde virou cassino para fundos de investimento. A XP já controla participações em redes de laboratórios, clínicas de imagem e agora oftalmologia. O padrão se repete: comprar, consolidar, vender mais caro.

Outras gestoras seguem o mesmo caminho. Pátria Investimentos, Crescera Capital, Warburg Pincus — todos comprando pedaços do sistema de saúde brasileiro. O negócio é tão lucrativo que até dinastias políticas brasileiras flertam com o setor, embora de forma mais discreta.

Enquanto isso, prefeituras quebradas cortam contratos com clínicas populares. O SUS perde médicos para o setor privado. E investidores internacionais faturam com a doença alheia.

O Lado B do Impacto Social

A IFC defende que sua entrada traz "capital paciente" e "melhores práticas de governança". Na prática, significa transformar clínicas familiares em máquinas de eficiência financeira.

Médicos viram funcionários com metas. Consultas encurtam. Exames se multiplicam. O modelo americano de saúde — onde se vai ao hospital e sai com uma conta de US$ 50 mil — começa a se replicar por aqui.

A XP e a IFC vendem a narrativa de que estão "democratizando acesso". Mas democratizar com mensalidade de R$ 400 no convênio mais básico tem nome diferente: gentrificação da saúde.

"O setor privado precisa crescer porque o público não funciona. Mas quem garante que o privado não vai cobrar o preço que quiser quando for hegemônico?"

A pergunta fica no ar. Assim como os 34 milhões que seguem esperando na fila do SUS. Com visão cada vez mais embaçada.

Carolina Pereira Ferraz

Carolina Pereira Ferraz

Cronista de poder e dinheiro. Ex-Forbes Brasil, ex-Piauí. Especializada em rankings de riqueza, dinastias políticas e herdeiros do poder.