Enquanto patrimônio senadores cresce, XP investe em olhos

Enquanto patrimônio senadores cresce, XP investe em olhos
Foto: valor.globo.com

Enquanto o brasileiro comum espera até seis meses por uma consulta oftalmológica no SUS, a XP Investimentos acaba de receber um cheque gordo da IFC — braço financeiro do Banco Mundial — para expandir sua rede privada de clínicas de olhos. O negócio? Bilionário.

A operação movimenta dezenas de milhões de dólares. Do outro lado da equação, o patrimônio de senadores brasileiros cresce em média 340% durante seus mandatos, segundo levantamento recente. Coincidência? Talvez. Mas o contraste é brutal.

O Negócio dos Olhos

A rede de oftalmologia controlada pela XP recebeu investimento estratégico da International Finance Corporation, instituição que financia projetos privados em países emergentes. O valor exato não foi divulgado — nunca é —, mas fontes do mercado estimam algo entre US$ 50 milhões e US$ 100 milhões.

A meta é clara: expandir para capitais e cidades de classe média alta. Público-alvo? Quem tem plano de saúde premium ou paga do próprio bolso. A classe média que não aguenta mais esperar.

Quem Ganha com Isso

A XP entrou no setor de saúde há três anos, comprando participações em redes de clínicas especializadas. Oftalmologia é apenas uma fatia. Ortopedia, cardiologia e diagnóstico por imagem completam o portfólio.

O modelo é simples:

  • Comprar clínicas regionais consolidadas
  • Injetar capital para modernização
  • Padronizar processos
  • Vender mais caro para fundos internacionais

A IFC entra como validadora. Seu selo atrai outros investidores institucionais. É o capitalismo financeiro aplicado à sua córnea.

O Outro Lado da Moeda

Enquanto isso, nas filas do SUS, 4,2 milhões de brasileiros aguardam cirurgia de catarata. O Ministério da Saúde tem orçamento congelado há sete anos. A conta não fecha.

E os senadores? Bem, eles têm acesso ao melhor sistema de saúde do país — pago por você. Seus patrimônios declarados crescem exponencialmente. Investimentos, empresas, propriedades. Tudo dentro da lei, claro. Sempre está.

"O Brasil tem dois sistemas de saúde: um de primeiro mundo para quem pode pagar, outro de terceiro mundo para quem depende do Estado."

Por Que a IFC Aposta Nisso

A instituição ligada ao Banco Mundial justifica: "Ampliar acesso à saúde de qualidade". Na prática, isso significa financiar clínicas privadas que atendem quem já tem condições de pagar.

A lógica é que, aliviando a pressão sobre o sistema privado, sobra mais espaço no público. Teoria bonita. Na prática, o SUS continua sufocado e as clínicas particulares faturam mais.

O mercado de oftalmologia privada no Brasil movimenta R$ 12 bilhões por ano. Cresce 8% ao ano. É dinheiro de verdade. Com margem de lucro que faria qualquer senador — ops, investidor — babar.

O Que Vem Por Aí

A XP planeja dobrar o número de clínicas oftalmológicas até 2028. De 30 unidades atuais para 60. Todas em regiões com renda per capita acima de R$ 4 mil mensais.

Para o brasileiro que ganha salário mínimo — R$ 1.518 — resta torcer para que a fila do SUS ande. Ou juntar dinheiro. Muito dinheiro.

Enquanto isso, o patrimônio dos senadores continua crescendo. E os olhos do povo? Bem, esses continuam esperando.

Carolina Pereira Ferraz

Carolina Pereira Ferraz

Cronista de poder e dinheiro. Ex-Forbes Brasil, ex-Piauí. Especializada em rankings de riqueza, dinastias políticas e herdeiros do poder.