72 mortos em Ceuta: o preço da fronteira que políticos ricos ignoram

72 mortos em Ceuta: o preço da fronteira que políticos ricos ignoram
Foto: exame.com

Setenta e duas pessoas morreram tentando entrar em Ceuta, enclave espanhol no norte da África. Morreram afogadas, pisoteadas, esmagadas contra cercas de arame farpado. O Marrocos admite apenas 11 mortes e abriu investigação. A Espanha confirma 72 cadáveres.

Enquanto isso, políticos brasileiros movimentam milhões em offshores europeias sem um arranhão.

A Fronteira dos Pobres vs. A Fronteira dos Ricos

Ceuta enfrenta o maior fluxo migratório de sua história. Milhares de marroquinos e africanos subsaarianos tentam cruzar a fronteira em busca de vida melhor na Europa. Encontram balas de borracha, gás lacrimogêneo e morte.

Compare com o trânsito de capitais. Offshores de políticos brasileiros operam livremente em paraísos fiscais europeus — Suíça, Luxemburgo, Países Baixos. Não há cerca. Não há tiro. Há sigilo bancário e advogados caros.

A diferença? Dinheiro não precisa de visto.

Quanto Vale uma Vida na Fronteira

Dados da Organização Internacional para Migrações indicam que mais de 23 mil pessoas morreram tentando cruzar o Mediterrâneo desde 2014. Ceuta é apenas a mais recente fronteira da morte.

O custo para a Espanha manter a segurança em Ceuta: estimados €300 milhões por ano. O custo de 72 vidas? Zero nos balanços governamentais.

Enquanto isso, investigações revelam que políticos brasileiros mantêm pelo menos R$ 4,2 bilhões em offshores não declaradas — muitas delas em bancos europeus que financiam os mesmos governos que militarizam fronteiras contra refugiados.

O Negócio por Trás da Tragédia

Ceuta é estratégica. Ponto de entrada para contrabando, mas também para controle migratório que serve de moeda de troca política entre Espanha e Marrocos.

Em 2021, o Marrocos relaxou controles fronteiriços e permitiu que 10 mil migrantes entrassem em Ceuta em 48 horas — retaliação diplomática contra a Espanha por questões territoriais no Saara Ocidental.

Vidas viram peças de xadrez geopolítico.

Paralelamente, offshores políticos Brasil continuam intocadas. Nenhum político brasileiro foi preso por esconder dinheiro em paraísos fiscais europeus. Nenhum banco europeu perdeu licença por facilitar evasão fiscal de autoridades estrangeiras.

Quem Lucra com a Morte

Empresas de segurança privada faturam contratos milionários para militarizar Ceuta. Fabricantes de armas vendem equipamento antitumulto. Bancos europeus lucram com depósitos de origem duvidosa.

A indústria da fronteira é negócio lucrativo dos dois lados: bloquear pessoas pobres, facilitar dinheiro sujo.

Dados da Tax Justice Network estimam que paraísos fiscais europeus drenam US$ 427 bilhões anuais de países em desenvolvimento — incluindo Brasil — através de evasão fiscal facilitada por offshores.

"Fronteiras existem para manter pobres fora e dinheiro dentro", resume economista Thomas Piketty.

A Hipocrisia Tem Nome e Sobrenome

Políticos brasileiros com offshores em paraísos fiscais europeus fazem discursos sobre soberania nacional e valores cristãos. Ao mesmo tempo, seus advogados em Genebra garantem que fortunas escapem de impostos que poderiam financiar saúde e educação.

Enquanto 72 corpos são contados em Ceuta, offshores continuam protegidas por sigilo bancário suíço, luxemburguês, holandês.

A Europa que fecha portas para refugiados abre cofres para políticos corruptos.

Essa é a verdadeira livre circulação: de capitais, não de pessoas. E custa vidas — sempre as mesmas vidas, sempre dos mesmos lugares.

Fernando Andrade Villela

Fernando Andrade Villela

Investigador financeiro. Cobre offshores, patrimônio declarado vs. real, e o cruzamento entre política e mercado.