Mundo dividido custa US$ 1 tri — e herdeiros políticos lucram

Mundo dividido custa US$ 1 tri — e herdeiros políticos lucram
Foto: exame.com

Enquanto você quebra a cabeça para pagar as contas, a elite política global — incluindo os herdeiros políticos do Brasil — fatura alto com um mundo cada vez mais partido ao meio. Um estudo bombástico do Goldman Sachs joga luz sobre o óbvio que ninguém quer admitir: a fragmentação geopolítica está custando 1% do PIB mundial. Traduzindo: cerca de US$ 1 trilhão jogado no lixo todo ano.

O banco de investimento mais poderoso de Wall Street mediu friamente quanto custa cada racha diplomático. E os números assustam.

A matemática da discórdia

O Goldman fez as contas com precisão cirúrgica. Uma guerra? Dois anos para a economia se recuperar. Mas um rompimento diplomático — daqueles cheios de pompa, discursos inflamados e bandeiras tremulando — leva impressionantes 14 anos para cicatrizar.

Estamos mais divididos hoje do que nos anos 1980, quando o Muro de Berlim ainda estava de pé e Reagan batia boca com Gorbachev. A diferença? Naquela época, eram dois blocos claros. Hoje, são dezenas de fissuras simultâneas.

China versus Estados Unidos. Rússia contra Ocidente. Oriente Médio em polvorosa permanente. E no meio disso tudo, países emergentes — Brasil incluído — tentando jogar dos dois lados do tabuleiro.

Quem paga a conta?

Não são os herdeiros políticos do Brasil, pode apostar. Enquanto o trabalhador médio sente o aperto da inflação global, a elite bem-nascida de Brasília navega tranquila entre Washington e Pequim, entre Moscou e Bruxelas.

Esses herdeiros — filhos, netos e sobrinhos de políticos que perpetuam dinastias há décadas — dominam a arte de lucrar com a instabilidade. Contratos governamentais, concessões estratégicas, cargos em estatais. Tudo flui melhor quando o mundo está confuso e ninguém sabe exatamente quem são os aliados.

O Goldman Sachs não analisa isso, claro. Bancos de investimento preferem números frios a verdades quentes. Mas conectar os pontos não é difícil.

O custo invisível

Esse 1% de PIB perdido não é só estatística. É emprego que não surge. É salário que não aumenta. É empresa que não investe porque o futuro está nebuloso demais.

Cadeias de suprimento globais — aquelas que traziam produtos chineses baratos para sua casa — estão se partindo. Empresas gastam fortunas relocalizando fábricas. Governos impõem tarifas e sanções como se fossem confetes em carnaval.

E quem ganha com isso? Os mesmos de sempre. Quem tem sobrenome certo, carteirinha de partido influente e telefone direto com quem decide.

Brasil no olho do furacão

O Brasil adora se vender como ponte entre blocos. Conversamos com todo mundo, dizem nossos diplomatas com orgulho. Na prática, significa aproveitar brechas enquanto o mundo queima.

Os herdeiros políticos do Brasil entendem perfeitamente esse jogo. Mantêm negócios com chineses, educação dos filhos nos Estados Unidos, contas em paraísos fiscais europeus. Diversificação, chamam. Oportunismo, seria mais honesto.

Enquanto isso, o Goldman Sachs continua calculando quanto custa cada nova divisão. E o número só cresce.

A conta de US$ 1 trilhão por ano é paga por quem acorda cedo, pega ônibus lotado e volta pra casa exausto. Nunca por quem jananta em Davos discutindo "os desafios da governança global".

O mundo está partido. A elite está inteira. E lucrando.

Fernando Andrade Villela

Fernando Andrade Villela

Investigador financeiro. Cobre offshores, patrimônio declarado vs. real, e o cruzamento entre política e mercado.