Agro quer lavar imagem: R$ 2,5 tri buscam marqueteiros

Enquanto o brasileiro médio ganha R$ 2.800 por mês, o agronegócio brasileiro fatura R$ 2,5 trilhões por ano. Agora, os barões do campo querem algo além do dinheiro: querem que você goste deles.

O Fórum do Agronegócio virou palco para uma operação de lavagem de imagem. Marketing, comunicação visual, "valorização de marcas". Tradução: milhões sendo despejados para que o setor mais rico do país pareça bonzinho.

O Jogo da Percepção

O Canal Rural, porta-voz oficial do setor, promoveu o evento como discussão sobre "comunicação visual" e "valorização das marcas brasileiras". Mas o que está em jogo é maior.

O agronegócio responde por 25% do PIB brasileiro. Alimenta o país, alimenta o mundo. Mas enfrenta um problema: desmatamento, conflitos fundiários, agrotóxicos. A conta da imagem está ficando salgada.

Entra o marketing.

Quem Paga a Conta

As empresas do agro não divulgam quanto gastam em publicidade. Mas os números do setor falam: só em 2023, foram R$ 368 bilhões em exportações. Desse bolo gordo, uma fatia crescente vai para agências de comunicação.

O objetivo: transformar fazendeiros em "empreendedores do campo". Converter latifúndios em "propriedades sustentáveis". Mudar a narrativa antes que alguém mude as regras.

E funciona. Campanhas como "Agro é tech, agro é pop" viraram jargão nacional. Custaram quanto? Ninguém diz.

O Poder Por Trás da Marca

Não é coincidência que dinastias políticas brasileiras tenham raízes profundas no agronegócio. A bancada ruralista controla mais de 250 cadeiras no Congresso. Quando o marketing falha, a política entra.

A estratégia é dupla: na TV, o fazendeiro sorridente com trator de última geração. Em Brasília, a mão pesada bloqueando qualquer regulação ambiental mais dura.

O fórum discutiu "comunicação para o mercado internacional". Tradução: como vender soja para europeus preocupados com meio ambiente sem mudar nada na produção.

A Conta Que Não Fecha

Aqui está o contraste: o agro quer investimento em imagem, não em salário. O trabalhador rural brasileiro ganha, em média, R$ 1.550 por mês. O dono da fazenda fatura milhões.

Gastam fortunas para parecer modernos. Mas resistem a leis trabalhistas mais rígidas. Celebram a tecnologia nos comerciais. Mas mantêm estruturas de trabalho do século passado.

O marketing resolve tudo? Não. Mas adia o ajuste de contas.

O Que Vem Por Aí

O fórum indica o caminho: mais dinheiro em comunicação, menos em transparência. Marcas bonitas, contratos opacos. Narrativa de sustentabilidade, resistência a fiscalização.

O agronegócio brasileiro é gigante. Rico. Poderoso. E agora quer ser amado também.

A pergunta que fica: quanto custa comprar a simpatia de um país inteiro? E quem realmente paga essa conta?

Carolina Pereira Ferraz

Carolina Pereira Ferraz

Cronista de poder e dinheiro. Ex-Forbes Brasil, ex-Piauí. Especializada em rankings de riqueza, dinastias políticas e herdeiros do poder.