Enquanto bilionários faturam, Brasil vê HIV subir 20%

Enquanto bilionários faturam, Brasil vê HIV subir 20%
Foto: redir.folha.com.br

Enquanto o ranking dos bilionários do Brasil não para de engordar — são 65 fortunas acima de US$ 1 bilhão em 2025 —, o Sistema Único de Saúde apanha calado. As novas infecções por HIV dispararam mais de 20% entre 2010 e 2025, segundo o Unaids, braço da ONU para Aids.

Vinte por cento. Em pleno século XXI.

O Brasil tem um dos maiores programas públicos de combate ao HIV do mundo. Distribui antirretrovirais de graça. Fez história nos anos 90 quebrando patentes de remédios. Mas os números estão indo para o lado errado — e ninguém quer falar sobre isso.

O dinheiro está lá, mas não chega

A fortuna combinada dos bilionários brasileiros ultrapassa R$ 1 trilhão. Daria para bancar o orçamento inteiro do Ministério da Saúde por quase dois anos. Mas enquanto patrimônios explodem, a prevenção ao HIV segue subfinanciada, campanhas somem do ar, testagem despenca.

Entre 2010 e 2025, o número de brasileiros com patrimônio acima de US$ 1 bilhão mais que dobrou. No mesmo período, jovens entre 15 e 24 anos viraram o grupo com crescimento mais acelerado de novas infecções.

Coincidência? Não. É escolha. Escolha de prioridade.

Quem ganha com isso

A indústria farmacêutica, claro. Antirretrovirais de última geração custam caro. Muito caro. E quanto mais gente infectada, maior o mercado cativo. Empresas farmacêuticas que faturam bilhões com HIV têm executivos e acionistas — muitos deles, brasileiros — no topo da pirâmide da riqueza.

O lobby contra genéricos continua feroz. Enquanto isso, o SUS queima caixa com remédios que poderiam custar 80% menos se houvesse vontade política real.

"Temos tecnologia, temos estrutura. O que falta é coragem para enfrentar interesses bilionários", declarou fonte ligada ao programa brasileiro de HIV/Aids, sob condição de anonimato.

Os números que ninguém quer ver

  • Mais de 20% de aumento em novas infecções em 15 anos
  • Jovens entre 15-24 anos: grupo de maior crescimento
  • Bilionários brasileiros: de 30 para 65 entre 2010-2025
  • Orçamento federal para prevenção de HIV: estagnado há uma década

Dá para conectar os pontos. A riqueza está mais concentrada. Os programas sociais, mais fracos. E doenças que deveriam estar em extinção voltam a crescer.

A conta que não fecha

O Unaids alertou: sem retomada urgente de políticas de prevenção, o Brasil pode perder décadas de avanços. Mas retomar políticas custa dinheiro. E dinheiro, no Brasil de 2025, tem dono e endereço.

Enquanto isso, a fila do SUS aumenta. O preservativo some das unidades básicas. A testagem rápida vira luxo em muitas cidades. E os bilionários? Esses seguem muito bem, obrigado.

Vinte por cento de aumento não é estatística. São vidas. Vidas que valem menos que ações na bolsa, ao que tudo indica.

Fernando Andrade Villela

Fernando Andrade Villela

Investigador financeiro. Cobre offshores, patrimônio declarado vs. real, e o cruzamento entre política e mercado.