Colunista da Folha estuda facção que movimenta R$ 20 bi

Colunista da Folha estuda facção que movimenta R$ 20 bi
Foto: redir.folha.com.br

Enquanto a Forbes publica seu ranking de bilionários do Brasil com fortunas declaradas, um sociólogo que passa duas décadas estudando uma organização criminosa que movimenta estimados R$ 20 bilhões por ano acaba de ganhar uma coluna quinzenal na Folha de S.Paulo.

Gabriel Feltran, 50 anos, estreia nesta segunda-feira (3) no jornal. Seu currículo? Vinte anos de pesquisa sobre o Primeiro Comando da Capital.

O Sociólogo do Crime Organizado

Feltran não é nome novo. Professor da Unicamp, ele construiu carreira acadêmica mergulhando onde poucos ousam: nas estruturas de poder das periferias paulistas.

Seus livros — "Irmãos" e "O Legítimo Monopolio da Violência" — dissecam como o PCC opera. Não com romantismo. Com números, hierarquias, fluxos de dinheiro.

A Folha aposta nessa voz para falar de um Brasil que não aparece nos rankings oficiais de bilionários, mas que movimenta cifras comparáveis.

Quanto Vale o Crime?

Estimativas conservadoras apontam que o PCC movimenta entre R$ 15 bilhões e R$ 20 bilhões anualmente. Para comparação: isso equivale ao faturamento de empresas que aparecem na lista das 500 maiores do país.

Tráfico de drogas, armas, controle de territórios. Uma economia paralela com balanços jamais auditados, mas com impacto real.

Feltran conhece essa engrenagem por dentro — não como participante, mas como observador científico. Ele conversa com lideranças, mapeia rotas, entende códigos.

Por Que Agora?

A Folha não divulgou valores do contrato. Jornais tradicionais pagam entre R$ 3 mil e R$ 8 mil por coluna para nomes consolidados. Feltran publica quinzenalmente — cerca de 24 textos por ano.

O timing chama atenção. Brasil enfrenta crise de segurança pública. Facções expandem para o Nordeste. O debate sobre legalização das drogas ganha força.

Ter uma voz acadêmica, sem vínculos policiais ou políticos, pode render à Folha análises que outros veículos não conseguem produzir.

O Interesse Financeiro

Jornalismo investigativo sobre crime organizado atrai audiência. Documentários da Netflix sobre facções brasileiras batem recordes. Podcasts sobre o tema explodem em downloads.

A Folha, que enfrenta queda de assinantes impressos como todos os jornais tradicionais, busca conteúdo exclusivo para segurar leitores digitais.

Feltran oferece isso: acesso a um universo fechado, traduzido em linguagem acessível.

Quem Contra Quem

De um lado, academia e imprensa tradicional tentando explicar fenômenos complexos. Do outro, simplificações políticas que reduzem segurança pública a "bandido bom é bandido morto".

Feltran se posiciona no meio — nem defensor de criminosos, nem porta-voz de repressão cega. Incômodo para todos os lados.

Sua primeira coluna dirá muito sobre como a Folha pretende usar essa voz. Provocação? Análise fria? Denúncia?

O que está claro: quando um jornal contrata quem estuda uma organização bilionária ilegal, alguém vai ficar nervoso. E nervosismo gera cliques.

Isabela Guimarães Coutinho

Isabela Guimarães Coutinho

Editora de perfis. Escreve retratos de personagens do poder — do bilionário ao aliado invisível do Planalto.