Enquanto bilionários do Brasil dominam IA, pobre de POA usa robô pra economizar R$ 5

Enquanto bilionários do Brasil dominam IA, pobre de POA usa robô pra economizar R$ 5
Foto: G1

Enquanto os nomes do ranking dos bilionários do Brasil despejam milhões em inteligência artificial para dominar mercados e multiplicar fortunas, o cidadão comum de Porto Alegre descobriu um uso bem mais modesto para a mesma tecnologia: economizar alguns reais na compra do arroz.

A distância entre esses dois mundos cabe num número: 22,8%.

Esse é o percentual de consumidores gaúchos que já usam ferramentas de IA para decidir o que comprar, segundo pesquisa da Câmara de Dirigentes Lojistas de Porto Alegre. Outros 15,2% pretendem aderir em breve.

O abismo digital tem dois lados

De um lado, empresas bilionárias investem fortunas em algoritmos que preveem comportamento, manipulam preços em tempo real e criam monopólios invisíveis. Do outro, o trabalhador usa ChatGPT para descobrir se vale mais a pena comprar no Mercado A ou no Mercado B.

A ironia é cruel: a mesma tecnologia que concentra riqueza nas mãos de poucos virou ferramenta de sobrevivência para quem precisa esticar o salário até o fim do mês.

O levantamento da CDL revela que 59,7% dos entrevistados já utilizam IA de alguma forma no dia a dia. Mas não se iluda: ninguém está construindo império com isso.

Quem realmente lucra com seus cliques

Cada comparação de preço, cada busca por recomendação, cada segundo gasto nessas plataformas alimenta bancos de dados bilionários. As big techs — dominadas por nomes que figuram em todos os rankings de riqueza global — transformam seu comportamento de consumo em ouro digital.

Você economiza R$ 5 no supermercado. Eles faturam bilhões vendendo seus hábitos para anunciantes.

A pesquisa mostra uma mudança de comportamento real: tarefas que antes exigiam dezenas de abas abertas no navegador agora são resolvidas em segundos. Praticidade genuína? Sim. Mas também dependência crescente de ferramentas controladas por meia dúzia de corporações.

Porto Alegre como laboratório

A capital gaúcha virou termômetro involuntário dessa revolução desigual. Enquanto o consumidor médio adota IA para decisões básicas de compra, os verdadeiros players do mercado usam a mesma tecnologia para:

  • Definir preços dinâmicos que extraem o máximo de cada bolso
  • Eliminar concorrentes antes mesmo de você saber que eles existiam
  • Criar necessidades que você nem sabia que tinha

O conflito é simples: tecnologia de ponta nas mãos de todos, mas o poder real concentrado em pouquíssimos.

O futuro já chegou — mas não para você

Dos 15,2% que pretendem usar IA no futuro, quantos percebem que já estão sendo usados por ela? Algoritmos decidem o que você vê, quanto você paga e até o que você deseja comprar.

A democratização da inteligência artificial é uma narrativa bonita. A realidade é mais dura: você tem acesso às migalhas da tecnologia enquanto os bilionários do ranking brasileiro — e mundial — ficam com o banquete.

Porto Alegre está na vanguarda do consumo inteligente. Mas inteligência, nesse jogo, não garante vantagem real. Apenas a ilusão dela.

Fernando Andrade Villela

Fernando Andrade Villela

Investigador financeiro. Cobre offshores, patrimônio declarado vs. real, e o cruzamento entre política e mercado.