Cão frentista viaja à Patagônia e morre — quem paga a conta?

Cão frentista viaja à Patagônia e morre — quem paga a conta?
Foto: redir.folha.com.br

Enquanto 33 milhões de brasileiros vivem abaixo da linha da pobreza, um cachorro de posto de gasolina embarcou para a Patagônia argentina. Não voltou vivo.

Poze, um dos cães frentistas que viraram celebridade em Campinas (SP), morreu durante passeio internacional com a família que o adotou. O animal ficou famoso nas redes sociais trabalhando em um posto de combustíveis antes de ganhar lar definitivo.

A viagem para a região sul da Argentina não sai por menos de R$ 15 mil por pessoa — sem contar os custos veterinários, documentação pet e transporte do animal. Combustível, hospedagem, alimentação: tudo em dólar turismo.

O negócio dos pets de luxo

O mercado pet brasileiro movimentou R$ 64,6 bilhões em 2025. É o segundo maior do mundo, atrás apenas dos Estados Unidos. Turismo com animais é o segmento que mais cresce — alta de 23% ao ano.

Hotéis cinco estrelas para cães. Spas caninos. Passaportes para pets. Consultas veterinárias que custam mais que médico particular.

Enquanto isso, o salário mínimo brasileiro mal paga ração premium para um mês.

Quem está por trás

A família de Poze não foi identificada publicamente. Mas o perfil é claro: classe média alta paulista, com passaporte em dia e crédito internacional aprovado.

A Patagônia argentina virou destino queridinho dos brasileiros com poder de compra depois que Bariloche ficou caro demais. El Calafate, Ushuaia, Torres del Paine — roteiros de R$ 30 mil para cima.

O cachorro que um dia usava coleira improvisada no posto de gasolina morreu como turista internacional. Ironia ou símbolo de ascensão social canina?

O que ninguém conta

Transportar animais para fora do país exige:

  • Certificado veterinário internacional (CVI) — R$ 500 a R$ 1.500
  • Vacinas específicas — R$ 300 a R$ 800
  • Microchip — R$ 150 a R$ 300
  • Caixa de transporte homologada — R$ 400 a R$ 2 mil
  • Taxa de embarque pet — R$ 800 a R$ 3 mil dependendo da companhia

Sem contar seguro viagem para animal, que poucos fazem mas todos deveriam.

A conta não fecha

Brasil tem 185 bilionários, segundo ranking da Forbes 2026. Juntos, acumulam US$ 548 bilhões. Eduardo Saverin lidera com US$ 28 bilhões. Jorge Paulo Lemann vem logo atrás.

Na outra ponta, 62,9 milhões de brasileiros vivem com até meio salário mínimo per capita. Muitos nunca saíram do próprio estado. Quanto mais do país.

Poze teve privilégio que maioria dos brasileiros nunca terá: conhecer outro país. Morreu longe de casa, mas morreu viajando.

A pergunta que fica: num país onde cachorro viaja para a Argentina e gente morre na fila do SUS, quem realmente importa?

"O animal ficou famoso trabalhando no posto antes de ser adotado. Virou influencer canino antes de virar turista."

Poze deixa legado nas redes sociais e seguidores em luto. Seus antigos colegas de posto continuam trabalhando sob o sol de Campinas, esperando a própria adoção.

Alguns nascem em berço de ouro. Outros morrem na Patagônia. A maioria fica no posto.

Fernando Andrade Villela

Fernando Andrade Villela

Investigador financeiro. Cobre offshores, patrimônio declarado vs. real, e o cruzamento entre política e mercado.