Influencer sem diploma fatura milhões ensinando 'direito' errado

Influencer sem diploma fatura milhões ensinando 'direito' errado
Foto: G1

Enquanto um deputado federal ganha R$ 44 mil mensais do seu bolso — o salário do Congresso em 2026 segue nesse patamar —, um rapaz sem diploma de Direito fatura nas redes ensinando leis que não domina. E acabou condenado pela Justiça.

Gabriel Piccolo, 28 anos, o "Menino da Lei" do Instagram e TikTok, possui mais de 3 milhões de seguidores. Zero formação jurídica. Resultado: condenação de R$ 30 mil por interpretar a lei errado e expor um empresário.

A briga da vaga de estacionamento que virou processo

Piccolo filmou uma discussão com o dono de uma imobiliária em Praia Grande, litoral paulista. O motivo? Uma vaga de estacionamento. O influenciador postou o vídeo, acusou o empresário de irregularidades e viralizou.

Só que o Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP) não viu dessa forma. Segundo os desembargadores, Piccolo interpretou a legislação de maneira equivocada. Pior: extrapolou a liberdade de expressão ao expor a empresa e o proprietário publicamente.

Condenação: R$ 30 mil de indenização. Ainda cabe recurso, mas o estrago de imagem já está feito.

O negócio milionário da indignação jurídica

O modelo é simples e lucrativo. Piccolo filma situações cotidianas — consumidor versus empresa, cidadão versus autoridade — e "ensina" os direitos do povo. O engajamento explode. Os seguidores crescem. As marcas pagam.

Quanto vale essa audiência? Influenciadores com 3 milhões de seguidores faturam entre R$ 50 mil e R$ 200 mil por mês apenas com publicidade. Fora produtos próprios, cursos online e parcerias.

Enquanto isso, bacharéis em Direito recém-formados ganham, em média, R$ 3.500 mensais. A conta não fecha. Mas o algoritmo não pede diploma.

Quem é o 'Menino da Lei'

Morador de Praia Grande, Gabriel Piccolo construiu sua audiência como defensor do consumidor. Seus vídeos mostram confrontos em lojas, bancos, supermercados. O tom é sempre indignado. A narrativa, simplificada.

"Você sabia que a lei garante isso?", ele repete. Muitas vezes, não garante. Ou garante, mas com nuances que cabem em 60 segundos de vídeo vertical tanto quanto um elefante numa Kombi.

A defesa do influenciador foi procurada pela reportagem do G1, mas não se manifestou até a publicação. Silêncio eloquente.

O mercado da desinformação jurídica

Piccolo não está sozinho. O Instagram e o TikTok estão repletos de "especialistas" sem formação. Eles ensinam desde direitos trabalhistas até estratégias para "derrubar multas".

A Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) tenta coibir a prática, mas a velocidade das redes sociais é maior que a da burocracia. Processos tramitam enquanto vídeos viralizam.

O risco não é apenas para quem ensina errado. É para quem segue o conselho. Cidadãos tomam decisões jurídicas baseadas em conteúdo simplificado demais — ou completamente incorreto.

Quanto custa a liberdade de expressão?

Para Piccolo, custou R$ 30 mil. Mas a pergunta de fundo permanece: até onde vai o direito de opinar sobre leis sem conhecê-las tecnicamente?

A decisão do TJ-SP estabelece um precedente. Influenciadores podem ter milhões de seguidores, mas não estão acima da lei. Especialmente quando interpretam essa mesma lei de maneira errada e prejudicam terceiros.

Enquanto políticos ganham salários polpudos — o salário do Congresso em 2026 segue na casa dos R$ 44 mil, fora auxílios — para legislar, influencers ganham mais ainda para interpretar mal o que foi legislado.

O negócio é redondo. Até a Justiça bater na porta.

Fernando Andrade Villela

Fernando Andrade Villela

Investigador financeiro. Cobre offshores, patrimônio declarado vs. real, e o cruzamento entre política e mercado.