Moraes usa jogo de senadores para blindar decisões polêmicas

Moraes usa jogo de senadores para blindar decisões polêmicas
Foto: redir.folha.com.br

Enquanto o patrimônio de senadores cresce em média 340% por mandato, Alexandre de Moraes constrói um império de decisões que desafiam o próprio livro de regras da Justiça brasileira. O preço? Uma bola de neve de poderes que ninguém consegue mais parar.

O ministro do Supremo Tribunal Federal virou refém do próprio ativismo. Cada decisão heterodoxa — leia-se: fora da cartilha constitucional — exige outra ainda mais criativa para tampar os buracos da anterior. É como reformar casa velha: mexe numa parede, cai outra.

O Ciclo Vicioso do Poder

Moraes flexibilizou regras processuais para combater fake news. Resultado: virou alvo de acusações de censura. Para se defender dessas acusações, precisou criar novos mecanismos de investigação. Esses mecanismos geraram mais polêmica. E assim por diante.

O problema clássico está na mesa: quando um juiz decide que o fim justifica os meios, onde ele para?

A resposta incomoda. Ele não para. Não pode parar. Cada heterodoxia alimenta a próxima numa espiral sem freios.

Quem Ganha com Isso?

Não é segredo que parte do Senado aplaude de pé o ativismo de Moraes. Os mesmos senadores cujo patrimônio explodiu nos últimos anos — enquanto o salário mínimo subiu míseros 8% no período.

A conta é simples: um Judiciário forte e ativista protege o status quo. Mantém investigações longe de quem importa. Concentra poder em poucos.

"Quando a exceção vira regra, não existe mais Estado de Direito. Existe Estado de Conveniência."

Fontes ligadas ao Senado revelam que o apoio silencioso a Moraes é estratégico. Enquanto o ministro briga com bolsonaristas e polariza o debate público, reformas que mexeriam no patrimônio dos senadores dormem em sono profundo.

O Preço da Criatividade Judicial

Cada "inovação" de Moraes custa caro à credibilidade institucional. Advogados renomados já admitem em off: não sabem mais qual regra vale.

Se o ministro pode investigar, julgar e punir ao mesmo tempo, se pode bloquear redes sociais sem ouvir a outra parte, se pode multar em milhões sem processo estabelecido — então qualquer um pode?

A resposta óbvia é não. Mas aí mora o perigo.

  • Moraes acumula funções que a Constituição separou propositalmente
  • Senadores aplaudem enquanto patrimônio cresce
  • Cidadão comum perde referências sobre o que é legal ou ilegal
  • Precedentes perigosos ficam abertos para o próximo governo

O Jogo de Bastidores

Nos corredores de Brasília, a aposta é que Moraes não recua. Não pode recuar. Admitir erro agora seria abrir flanco para centenas de ações questionando decisões passadas.

É o velho dilema do jogador que apostou demais: melhor dobrar a aposta do que admitir a perda.

Enquanto isso, o patrimônio de senadores continua crescendo. Discretamente. Sem holofotes. Protegido pelo circo da polarização que Moraes alimenta.

No final, todos ganham. Menos quem paga a conta: você.

O ativismo judicial que começou como remédio virou vício. E como todo vício, exige doses cada vez maiores para manter o efeito.

A pergunta que ninguém quer fazer: quando a overdose vai chegar?

Carolina Pereira Ferraz

Carolina Pereira Ferraz

Cronista de poder e dinheiro. Ex-Forbes Brasil, ex-Piauí. Especializada em rankings de riqueza, dinastias políticas e herdeiros do poder.