Morte aos 47: dramaturgo que deu voz ao poder na Bahia

Morte aos 47: dramaturgo que deu voz ao poder na Bahia
Foto: redir.folha.com.br

Quarenta e sete anos. Essa foi a conta final de João Sanches, dramaturgo que ousou fazer do teatro baiano um palco para dissecar poder, dinheiro e influência política.

A Fundação Gregório de Mattos confirmou a morte neste domingo (19). Não divulgou causa.

Sanches ficou conhecido por "Boca a Boca - Um Solo para Gregório", peça que transformou a figura do poeta e político Gregório de Mattos em um monólogo cortante sobre os bastidores da elite baiana do século XVII. Um homem que desafiou autoridades coloniais, perdeu tudo e foi exilado.

O Teatro Como Espelho do Poder

A escolha de Gregório de Mattos não foi acidental. O poeta baiano do século XVII atacou governadores, bispos e comerciantes ricos através de versos satíricos. Pagou caro: prisão, perseguição, degredo em Angola.

Sanches viu nessa história um paralelo com o Brasil contemporâneo. Poder que silencia. Dinheiro que compra. Nomes que destroem quem ousa falar.

"Boca a Boca" estreou como uma crítica velada aos herdeiros políticos que dominam a Bahia há gerações. Famílias que transitam entre prefeituras, assembleias e cargos federais como se fossem propriedade privada.

Quanto Vale Um Artista Que Incomoda?

A Fundação Gregório de Mattos, vinculada à Prefeitura de Salvador, ironicamente homenageou Sanches. A mesma estrutura de poder que o dramaturgo criticava agora chorava sua partida.

O orçamento da fundação para 2026: R$ 47 milhões. Dinheiro público para cultura numa cidade onde o salário mínimo mal paga aluguel.

Sanches nunca enriqueceu com teatro. Morreu jovem, aos 47. A mesma idade em que muitos políticos baianos apenas começam suas dinastias.

Legado Além dos Palcos

O trabalho de João Sanches incluía:

  • Direção de mais de 20 montagens teatrais em Salvador
  • Formação de jovens atores em comunidades periféricas
  • Dramaturgia focada em personagens históricos que desafiaram estruturas de poder
  • Resistência ao teatro comercial e às facilidades do entretenimento vazio

Enquanto herdeiros políticos no Brasil acumulam patrimônios milionários através de mandatos sucessivos — muitos começando como "filhos de", "netos de", "sobrinhos de" —, artistas como Sanches vivem da luta diária.

A classe teatral brasileira faturou em média R$ 3.200 mensais em 2025, segundo dados do Ministério da Cultura. Um vereador em Salvador ganha R$ 22 mil.

O Silêncio Que Fala

Até o fechamento desta edição, nenhum político baiano de peso se manifestou publicamente sobre a morte de Sanches. Nem mesmo aqueles que frequentam vernissages e inaugurações culturais em ano eleitoral.

A Fundação Gregório de Mattos prometeu homenagens futuras. Não especificou quais, nem quando, nem quanto custará ao erário.

João Sanches deixa obra, deixa alunos, deixa um vazio no teatro baiano. Não deixa fortuna. Não deixa sobrenome político. Não deixa herdeiros no poder.

Deixa apenas perguntas incômodas sobre quem realmente importa neste país.

Carolina Pereira Ferraz

Carolina Pereira Ferraz

Cronista de poder e dinheiro. Ex-Forbes Brasil, ex-Piauí. Especializada em rankings de riqueza, dinastias políticas e herdeiros do poder.