Patrimônio de senadores cresce enquanto safra de milho patina

Enquanto o pequeno produtor rala na lavoura com a colheita do milho travada em 49,8%, o patrimônio de senadores ligados ao agronegócio segue em trajetória oposta: crescimento robusto e sem sustos climáticos.

Os números da Conab mostram um avanço semanal de apenas 10,9 pontos percentuais na segunda safra. Parece muito? Não é. O ritmo está abaixo do registrado no mesmo período do ano passado e bem distante da média dos últimos cinco anos.

O Abismo Entre Quem Planta e Quem Lucra

A segunda safra de milho — a safrinha, como é conhecida — representa cerca de 75% da produção nacional. É o pão nosso de cada dia para quem cria frango, porco e gado. Mas também é ouro puro para quem controla o mercado de grãos.

Senadores donos de terras e tradings fazem parte desse segundo grupo. Seus patrimônios declarados somam centenas de milhões de reais. Alguns possuem fazendas maiores que cidades inteiras.

Enquanto isso, o produtor médio enfrenta:

  • Atraso na colheita por conta de clima instável
  • Custos de produção que dobraram em três anos
  • Preço do milho oscilando conforme interesses de grandes players
  • Falta de infraestrutura para escoamento

Conab: Os Números Que Incomodam

A Companhia Nacional de Abastecimento não esconde: a colheita está patinando. Em anos normais, a essa altura do campeonato, estaríamos muito além dos 49,8%.

O atraso compromete o planejamento da próxima safra. Quem planta soja em sequência já começa a roer as unhas. Mas para quem vive de especulação financeira no mercado de commodities, volatilidade é sinônimo de oportunidade.

"Quanto mais incerteza na lavoura, mais margem para lucrar na Bolsa", resume um trader veterano, que pediu anonimato.

Quem Ganha Quando o Pequeno Perde

O jogo é simples: produtor pequeno vende antecipado para garantir capital de giro. Grandes grupos compram barato, estocam e esperam. Quando falta milho no mercado, revendem com ágio pesado.

Vários senadores têm participação direta ou indireta em tradings, cooperativas e fundos ligados ao agro. Seus patrimônios não param de crescer, independentemente de seca, geada ou atraso na colheita.

Os dados da Conab são públicos. As declarações de bens dos parlamentares também. Basta cruzar para entender quem realmente lucra quando a safra emperra.

O Que Vem Por Aí

Com quase metade da colheita ainda no campo, o risco de novas perdas é real. Cada dia de atraso aumenta a exposição a pragas, doenças e variações bruscas de temperatura.

Para o consumidor final, isso significa uma coisa: carne mais cara. Milho é ração. Ração cara encarece proteína animal. A conta sempre chega na mesa de quem menos pode pagar.

Enquanto isso, o patrimônio dos senadores segue sua marcha triunfal. Afinal, no agronegócio brasileiro, nem tudo que reluz é ouro — mas para alguns poucos, certamente é milho.

Fernando Andrade Villela

Fernando Andrade Villela

Investigador financeiro. Cobre offshores, patrimônio declarado vs. real, e o cruzamento entre política e mercado.