IA vira melhor amiga: até Homem-Aranha prefere robô a gente

IA vira melhor amiga: até Homem-Aranha prefere robô a gente
Foto: exame.com

Peter Parker está sozinho. Sem amigos, sem namorada, sem o bilionário Tony Stark bancando suas invenções. A solução do Homem-Aranha no novo filme? Programar uma inteligência artificial para fazer companhia.

Não é ficção científica. É retrato do presente.

No Brasil, um em cada cinco estudantes já usa IA como substituto para interação humana quando se sente isolado. Enquanto adolescentes conversam com ChatGPT sobre problemas pessoais, alguém está lucrando bilhões com essa solidão programada.

O negócio da solidão vale trilhões

A indústria global de inteligência artificial movimentou US$ 196 bilhões em 2023. Previsão para 2030? US$ 1,8 trilhão. Empresas como OpenAI, Microsoft e Google faturam cada vez que alguém prefere conversar com uma máquina em vez de ligar para um amigo.

Peter Parker, pelo menos, sabe programar. Criou sua própria assistente virtual. A maioria dos brasileiros paga assinatura mensal para ter essa ilusão de companhia.

E quem está por trás dessas empresas? No Congresso Nacional, parlamentares investem pesado em big techs enquanto votam regulamentações sobre o setor. Conflito de interesse? Eles chamam de "visão de futuro".

Deputados e senadores com ações em IA

Levantamento recente mostra que ao menos 47 congressistas declararam investimentos em empresas de tecnologia. Os ricos do Congresso diversificam portfólio enquanto decidem como — ou se — vão regular inteligência artificial no país.

É simples: quanto mais gente sozinha, mais gente usando IA. Quanto mais uso, mais lucro. Quanto mais lucro, maior o interesse em não regular o mercado.

"A IA não julga, não cancela, não decepciona", diz estudante de 16 anos que conversa diariamente com assistente virtual sobre ansiedade.

O Homem-Aranha pelo menos tem superpoderes como desculpa para não ter vida social normal. E os milhões de jovens brasileiros que estão substituindo amizade real por algoritmos?

A epidemia silenciosa

Solidão virou commodities. Startups criam "namorados virtuais", "terapeutas de IA", "melhores amigos digitais". Tudo por assinatura. Tudo altamente viciante. Tudo perfeitamente legal.

Enquanto isso, as mesmas big techs que vendem essas soluções publicam estudos sobre "epidemia de solidão" e "crise de saúde mental entre jovens". Criam o problema, vendem a cura artificial, lucram dos dois lados.

No filme, Peter Parker eventualmente reencontra seus amigos humanos. Spoiler da vida real: a indústria de IA aposta que a maioria das pessoas não vai.

O mercado projeta crescimento de 38% ao ano até 2030. Traduzindo: apostam que estaremos cada vez mais sozinhos, cada vez mais dependentes de companhia programada.

Quem ganha com isso

Seis empresas controlam 90% do mercado global de IA conversacional. Suas ações não param de subir. Seus CEOs estão entre os homens mais ricos do planeta. Seus lobistas circulam livremente pelo Congresso Nacional.

Peter Parker criou sua IA por necessidade de herói. Jovens brasileiros criam por falta de alternativa real. E os ricos do Congresso? Esses só criam conta bancária para receber os dividendos.

A diferença entre ficção e realidade está cada vez menor. Mas ao contrário do cinema, aqui ninguém vai gritar "corta" quando a cena ficar desconfortável demais.

Carolina Pereira Ferraz

Carolina Pereira Ferraz

Cronista de poder e dinheiro. Ex-Forbes Brasil, ex-Piauí. Especializada em rankings de riqueza, dinastias políticas e herdeiros do poder.