Ozempic felino: indústria de R$ 700 bi mira gatos gordos

Ozempic felino: indústria de R$ 700 bi mira gatos gordos
Foto: exame.com

Enquanto brasileiros ralam para pagar R$ 1.200 numa caneta de Ozempic, laboratórios já preparam a próxima mina de ouro: versões do remédio para bichos de estimação. O alvo? Os 60% de gatos e cachorros com sobrepeso nos Estados Unidos e Europa.

A corrida bilionária já começou. A mesma tecnologia que transformou o tratamento de diabetes — e virou febre entre celebridades — agora será adaptada para o mercado pet, que movimenta US$ 150 bilhões anuais só nos EUA. No Brasil, R$ 64 bilhões em 2023.

O filão dos gordos de quatro patas

Fabricantes como Novo Nordisk e Eli Lilly não comentam publicamente, mas startups de biotecnologia já captaram milhões para desenvolver análogos de GLP-1 — princípio ativo do Ozempic e Wegovy — voltados para animais.

A veterinária americana Butternut Box levantou US$ 18 milhões este ano. A inglesa Vetsource recebeu aporte de US$ 125 milhões. Ambas trabalham em terapias anti-obesidade para pets.

"É o mercado perfeito", explica analista da Goldman Sachs ao Financial Times. "Donos que pagam US$ 80 por mês em ração premium não vão pensar duas vezes antes de gastar US$ 200 no emagrecimento do animal."

Quem ganha, quem paga

A matemática é simples. Nos EUA, 100 milhões de lares têm gatos ou cachorros. Se 10% comprarem a versão veterinária do Ozempic a US$ 150/mês, são US$ 18 bilhões anuais. Só em receita recorrente.

No Brasil, o cenário replica a desigualdade de sempre. Enquanto 40 milhões vivem abaixo da linha da pobreza, cresce o mercado de luxo pet. Consultas cardiológicas para cães chegam a R$ 800. Planos de saúde veterinários custam R$ 300 mensais.

"Estamos vendo a mesma concentração de renda", diz economista da FGV. "Uma elite que gasta milhares com animais enquanto metade do país não tem dinheiro para remédio humano."

A ciência por trás do negócio

Tecnicamente, funciona. Testes preliminares em gatos obesos mostraram perda de 15% do peso corporal em três meses. Sem efeitos colaterais graves aparentes.

Mas veterinários alertam: o sobrepeso animal vem de superalimentação pelos donos. "É antropomorfização levada ao extremo", afirma presidente do Conselho Federal de Medicina Veterinária. "Em vez de controlar porções, vão medicar o bicho."

A Anvisa ainda não recebeu pedidos de registro. Mas executivos do setor estimam que produtos devem chegar ao mercado brasileiro até 2026.

Poder, dinheiro e prioridades

O debate real está em outro lugar. Laboratórios investem bilhões em medicação para pets enquanto doenças tropicais matam milhões por falta de pesquisa.

O tratamento completo de leishmaniose canina custa R$ 3 mil. Vacinas básicas humanas faltam em postos de saúde. Mas o mercado segue a lógica do lucro, não da necessidade.

"É o capitalismo em sua forma mais crua", resume deputado federal em audiência sobre preços de medicamentos. "Ozempic para gato terá fila menor que insulina para diabético pobre."

Enquanto isso, ações da Novo Nordisk subiram 340% desde o lançamento do Ozempic. E investidores já precificam a expansão veterinária. Wall Street não tem dó. Tem faro para dinheiro.

Carolina Pereira Ferraz

Carolina Pereira Ferraz

Cronista de poder e dinheiro. Ex-Forbes Brasil, ex-Piauí. Especializada em rankings de riqueza, dinastias políticas e herdeiros do poder.